Na esteira do avanço dos FIDCs, a fintech Vitório está explorando uma alternativa para empresas de médio porte, num desenho que lembra o modelo de crédito privado norte-americano.
A companhia capta recursos junto a investidores profissionais, incluindo family offices, em operações sob medida para operações de antecipação de recebíveis destinadas às cadeias de fornecedores de seus clientes.
A empresa estreou com uma captação de R$ 25 milhões no começo de 2026 e opera em Minas Gerais e São Paulo.
O objetivo, assim como dos FIDCs, é tentar resolver um desafio recorrente das indústrias: garantir liquidez para fornecedores sem comprometer o capital de giro da empresa âncora.
Mas em vez de recorrer a estruturas mais tradicionais do mercado de crédito, a Vitório assume integralmente a gestão de uma fatia da antecipação de recebíveis, incluindo a estruturação do funding, a análise de crédito e a cobrança.
“O risco é todo nosso: estrutura de funding, crédito e cobrança”, disse o sócio-fundador e CEO da Vitório, Rafael Nakamoto, ao Crédito Privado 360.
Segundo o executivo, a estratégia tem como objetivo fortalecer o ecossistema financeiro das empresas atendidas, permitindo que os recursos circulem dentro da própria cadeia produtiva.
“O objetivo é não deixar o dinheiro sair do ecossistema, com as indústrias financiando sua própria cadeia de fornecedores”, diz.
A empresa identificou uma oportunidade em um segmento que, segundo Nakamoto, recebe atenção limitada das grandes instituições financeiras. O foco está em companhias com faturamento anual ao redor de R$ 1 bilhão, incluindo dos setores químico, farmacêutico e de importação.
“Vimos que tem uma oportunidade nessa faixa de empresas, especialmente as sediadas fora das grandes capitais, que são mais desassistidas pelos bancos”, afirmou.
ALTERNATIVA AOS FIDCS
A proposta da Vitório também busca responder a uma demanda de empresas que enxergam limitações nas estruturas tradicionais de crédito baseadas em FIDCs.
Embora amplamente utilizados para financiar operações de recebíveis, esses veículos podem envolver custos e exigências que nem sempre se adequam ao perfil de determinadas companhias.
“Algumas empresas se recusaram a captar via FIDCs. Muitos acham que é muito caro. No meu modelo, vou reduzir o risco dele”, diz Nakamoto.
No modelo de ‘circuito fechado’, os ganhos da engenharia financeira para antecipação de recebíveis fica dividido entre a Vitório e a cliente. Comparativamente, um FIDC envolve uma cadeia que pode facilmente ter mais de 10 intermediários.
Além do financiamento de fornecedores, a fintech também atua em operações ligadas à extensão de prazos comerciais.
Segundo o executivo, muitos varejistas evitam conceder condições mais longas aos clientes por receio de elevar sua exposição ao risco de inadimplência.
“Quando o varejista não dá prazo maior para clientes, perde vendas. Então eu ofereço extensão e assumo parte do risco”, explica.
Parte das operações originadas pela companhia é posteriormente distribuída para tesourarias de bancos, ampliando a capacidade de financiamento da plataforma.
A estratégia comercial da Vitório também se beneficia da experiência de Nakamoto em outras instituições do mercado, incluindo a Konductor, posteriormente adquirida pela Dock, a Boa Vista Serviços e a B3.
Os relacionamentos construídos ao longo dessa trajetória ajudam na prospecção de novos clientes e parceiros de negócios.
Com a expansão das alternativas de crédito privado no Brasil e a crescente busca das empresas por fontes de financiamento mais flexíveis, a Vitório aposta em um modelo que combina capital de investidores profissionais com soluções voltadas à gestão financeira das cadeias produtivas.
De todo modo, a fintech planeja também ter seu FIDC próprio de até R$ 100 milhões ainda neste ano, para ter mais flexibilidade nas operações. Enquanto busca tirar também sua licença de instituição de pagamentos, preparando terreno para oferecer um conjunto mais abrangente de soluções financeiras.
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