Crédito privado: uma conversa no escuro?

Diferente do que acontece no mercado de ações, o investidor em crédito privado no Brasil não sabe quem são as grandes posições quando decide comprar um debênture, um CRI/CRA ou uma cota de FIDC.

Isso, claro, atrapalha na hora dos chamados eventos de crédito, como uma reestruturação de dívida ou pedido de recuperação judicial ou extrajudicial, em que os investidores precisam se articular para negociar com o emissor.

Mais impressionante do que isso: “Muitas empresas também não sabem quem são seus próprios credores”. A afirmação é do presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), Fabio Coelho.

O diagnóstico ilustra as falhas no crédito privado, que estão se multiplicando à medida que o mercado cresce de forma exponencial no Brasil.

Nessa entrevista para o podcast do Crédito Privado 360, Coelho explica como esse cenário levou a Amec, uma entidade criada há 20 anos para defender minoritários de empresas listadas na B3, a também abraçar a defesa de detentores de dívida estruturada.

A lista de melhorias necessárias é longa, incluindo a qualidade dos prospectos das ofertas, as garantias oferecidas pelos devedores, a definição de quórum mínimo de cotistas, falta de padronização das escrituras, conflitos de interesse de prestadores de serviços, só para citar alguns.

A lista de perigos que foram sendo percebidos é tamanha que “analisar o crédito privado no Brasil pode ser considerado uma arte”, disse Coelho.

Mas gestoras de recursos e fundos de pensão, alguns dos principais sócios da Amec, já aprenderam algumas lições. Algumas delas não são ditas publicamente, mas fazem parte do “livro de bolso” dos gestores.

Por exemplo, dependendo do foro jurídico para resolução de conflitos, o gestor atribui um risco superior ao investimento. Ou simplesmente fica de fora do papel. Ou se na escritura da emissão posiciona a sede da empresa numa cidade diferente da sua matriz.

A partir dos aprendizados coletados, os credores estão ganhando força, disse ele.

“O credor tem que remodelar a discussão de governança (sobre crédito privado)”, disse ele. Inclusive porque, como visto em casos como Light, credores podem do dia para a noite verem seus títulos de dívida se transformarem em ações e a discussão sobre o investimento mudar totalmente.

Confira a entrevista completa:

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