Rafael Nogueira, chefe da área de recuperação de crédito da Chimera Capital

O ritmo recorde de pedidos de recuperação judicial (RJ) já comprometeu cerca de R$ 4 bilhões de reais em empréstimos feitos via crédito estruturado, incluindo os fundos de recebíveis (FIDCs) nos primeiros quatro meses de 2026.

O dado faz parte de um levantamento feito pela gestora Chimera Capital, especializada nos chamados créditos estressados, a pedido do Crédito Privado 360.

O estudo considerou 56 recuperações judiciais, cada um com valor mínimo de R$ 10 milhões em dívidas. No total, as RJs envolvem R$ 29,3 bilhões de credores. Os FIDCs apareceram em 1/4 dessas transações (14), com um total de R$ 3,8 bilhões.

A análise não incluiu os casos de recuperações extrajudiciais, como as pedidas por GPA e Raízen em março.

O Brasil registrou um recorde histórico de 2.466 empresas em recuperação judicial em 2025, segundo a Sera Experian, com tendência de alta em 2026.

EmpresaSetorDívida na RJ% da dívida com crédito estruturado
Oncoclinicas(+ 9 subsidiárias)SaúdeR$ 3,2 bilhões91,4% (CRIs)
Alliança SaúdeSaúdeR$ 1,32 bilhão36,9% FIDCs
Root BrasilAgronegócioR$ 143,2 milhões35,1% FIDCs
Autem do Brasil (+ 4 filiais)AgronegócioR$ 47,1 milhões25,5% FIDCs
RodoparanáTransporteR$ 386 milhões16,4% FIDCs
Grupo Alpha/Nova NoivaModaR$ 41,3 milhões15,2% FIDCs
Provider Contact CenterTIR$ 181,3 milhões13,5% FIDCs
Casa & Vídeo + Le BiscuitVarejoR$ 1,71 bilhão7,6% FIDCs
COTRIBÁAgronegócioR$ 1,43 bilhão6,3% FIDCs
Grupo Hübner(8 empresas)ModaR$ 261,1 milhões4,7% FIDCs
Colorminas (SC Holding + 3 subs)MineraçãoR$ 226,3 milhões4,6% FIDCs
XalingoBrinquedosR$ 58,8 milhões1,5% FIDCs
Barra Velha(+ 2 PF)IndústriaR$ 36,35 milhões 0,02% FIDCs

Fonte: Chimera Capital

Saúde e agronegócio, RJs mais presentes em FIDCs

Como mostra a tabela, os emissores que mais atingiram credores de FIDCs ao pedirem recuperação judicial são dos setores de saúde (Oncoclinicas e Alliança) agronegócio (Root Brasil, COTRIBÁ), varejo (CVLB e Hübner) e transportes (Rodoparaná).

Esses são alguns dos segmentos econômicos que mais têm recorrido a empréstimos via instrumentos de mercado de capitais, como CRIs/CRAs e debêntures, tendo gestoras de FIDCs e securitizadoras com a maior parte dos passivos.

“Ficará mais vez mais comum termos esses veículos em recuperações judiciais e extrajudiciais”, disse Rafael Fonseca Nogueira, autor do estudo e chefe da área de recuperação de crédito da Chimera Capital.

Segundo profissionais do mercado, esse movimento é especialmente sensível considerando que a indústria de FIDCs vem se popularizando rapidamente.

Em 2023, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) flexibilizou o arcabouço regulatório da indústria de fundos de investimentos, permitindo que certas classes de FIDCs pudessem ser oferecidos a investidores de varejo.

Com isso, a base de investidores em FIDCs cresceu 92% em 2025.

Contudo, alguns especialistas do setor notam que, simultaneamente, isso vem sendo visto como oportunidade para gestoras mais especializadas em recuperação de crédito.

“Isso sugere que a indústria não está só absorvendo o problema, ela está sendo usada para financiá-lo, selecioná-lo e, em alguns casos, arbitrá-lo”, disse Lucas Fleury, fundador da CPV Asset e fundador do Painel FIDC.

Recuperações judiciais: FIDCs mais atingidos

COTRIBÁ – Passivo R$ 1,4 bilhão

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