O município de Estrela, no Rio Grande do Sul, abriga o Grupo Medical San, uma das maiores fabricantes no país de equipamentos para estética.
Apesar de estar em um ramo de forte crescimento, a companhia criada em 1994 há anos percebia que muitas clínicas espalhadas pelo país não tinham recursos para comprar os produtos que fabrica.
E também não tinham acesso a crédito bancário, que anda cada vez mais escasso para empresas de pequeno porte, as PMEs. Essa é uma das primeiras classes de clientes para os quais os bancos fecham a torneira dos empréstimos quando há medo de alta dos calotes, como agora.
Percebendo que conhece melhor o perfil dos donos de clínicas do que os próprios bancos, a Medical San no ano passado recorreu a um FIDC (fundo de direitos creditórios), instrumento que busca recursos de investidores no mercado.
A estrutura permite antecipar recursos para tomadores usarem como capital de giro ou investimentos, num modelo inspirado nas factorings, mas de forma regulada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
À medida que o devedor, no caso as clínicas, pagam as prestações, o dinheiro volta para o fundo remunerando os investidores, que costuma incluir o próprio vendedor no final da fila dos credores, neste exemplo a Medical San. Os produtos vendidos, aqui as máquinas, servem como uma garantia.
De repente, FIDCs floresceram
Embora já exista há mais de 20 anos, esse modelo complexo, mas bem amarrado, já era usado por gigantes como Petrobras e Vale como forma de oferecer crédito a pequenos fornecedores que, assim, ficam mais protegidos contra crises econômicas e setoriais.
Nos últimos, porém, com mudanças regulatórias e tecnológicas, esse modelo tem ficado acessível a empresas de porte cada vez menor. É o caso da Medical San, que fatura ao redor de R$ 300 milhões por ano.
O modelo parece ter funcionado para a companhia catarinense. Os recursos da primeira rodada de FIDC lhe permitiram fechar mais de 2.500 contratos para clientes, movimentando R$ 260 milhões em financiamentos. De olho em novas geografias pelo país, a companhia agora fez uma segunda rodada de captação de mais R$ 100 milhões por meio do mesmo FIDC, coordenado pela gestora de recursos Orram.
Empresas de porte médio estão lançando mão de fundos de recebíveis (FIDCs) como estratégia para obter receitas financeiras, otimizar o planejamento fiscal e ampliar o relacionamento com fornecedores, clientes e funcionários.
Mercado de capitais chegam a empresas médias
O exemplo acima ilustra uma mudança silenciosa, por meio da qual o mercado de capitais vem tomando espaços crescentes dos bancos nas operações de crédito.
De fato, somados, instrumentos como debêntures, CRIs, CRAs e FIDCs somaram R$ 2,7 trilhões em financiamentos para empresas em 2025, acima dos R$ 2,6 trilhões fornecidos pelos bancos. Ou seja, o mercado de capitais superou os bancos como principal fonte de financiamento para empresas no Brasil pela primeira vez na história.
Em patrimônio acumulado, os FIDCs quase dobraram de tamanho nos últimos dois anos, atingindo mais de R$ 950 bilhões no fim de 2025.
É um mercado que vem conseguindo atravessar o momento recente de volatilidade dos CDBs, debêntures e CRIs/CRAs.
O número de contas de investidores em FIDCs saltou de 172 mil em janeiro para 331 mil em dezembro de 2025: alta de 92,5% em um único ano, segundo a Anbima.
“Os FIDCs estão tomando espaço deixado pelos bancos”, disse Rafael Nakamoto, fundador da Vitório, fintech que utiliza FIDCs para transformar indústrias em fornecedoras de crédito e outros serviços financeiros para seus distribuidores.

Alinhamento dos astros
Segundo profissionais de mercado, esse movimento reflete uma combinação de fatores, incluindo a Resolução CVM 175, de outubro de 2023, que abriu ao público em geral o acesso a cotas de FIDCs.
Adicionalmente, ajustes regulatórios por parte do Banco Central permitiram nos últimos anos o surgimento de fintechs que possuem licença de instituição financeira e que podem alugar seus serviços para terceiros, o que no jargão do mercado é conhecido como BaaS (banco como serviço, na tradução livre do inglês).
É por meio delas e da parceria que fazem com uma longa cadeia de instituições de mercado de capitais que os recebíveis se transformam num título de investimento.
Outro elemento a favor dos FIDCs foi o fim da isenção de come-cotas sobre fundos exclusivos e offshore. Isso redirecionou recursos de grandes fortunas para estruturas de crédito estruturado, como os fundo de recebíveis.
Além disso, as cotas de FIDCs em geral rendem mais do que a Selic, em geral de 15% a 20% ao ano, e têm uma cesta pulverizada de devedores, o que dilui o risco.
Esse conjunto tem sido uma alternativa para investidores que têm procurado diversificar seus recursos, especialmente com o estremecimento recente em fundos de crédito privado, que tiveram resgates líquidos de mais de R$ 10 bilhões nas semanas pós recuperações extrajudiciais de GPA e Raízen, os FIDCs continuam captando.
Com tanto dinheiro disponível procurando rentabilidade, empresas cada vez menores viram uma oportunidade de também se lançarem no mercado.
Quase metade dos FIDCs registrados na CVM opera com PL inferior a R$ 50 milhões.
Instituições financeiras estabelecidas também estão fortalecendo áreas próprias para lidarem com esse público. Uma delas é a Galapagos, que gere atualmente 27 FIDCs, com patrimônio sob gestão superior a R$ 3,9 bilhões no primeiro trimestre de 2026.
Alternativa aos bancos para os tomadores
Segundo Mariano Vieira, responsável pela área de mercado de capitais de dívida da Galapagos Capital, para as empresas que precisam de antecipar recursos, os FIDCs também têm ganhado interesse por se apresentar como alternativa aos bancos.

Muitas vezes, a operação da empresa cresce, a necessidade de capital de giro aumenta, mas as linhas bancárias não acompanham. Ou, mais frequentemente, chegam a um custo que comprime margens, diz Vieira.
Além disso, segundo o executivo o FIDC tem uma estrutura flexível que pode evoluir junto com o crescimento da empresa.
“À medida que a operação cresce e a carteira de recebíveis se expande, o fundo pode ser redimensionado, sem que a empresa precise renegociar contratos do zero”, concluiu Vieira.
____________________________________________________________________________________



Deixe uma resposta