
A Fitch rebaixou nesta quinta-feria (2) os ratings de crédito da empresa de saneamento Aegea, de ‘BB’ para ‘BB-‘. Além disso, a perspectiva para a nota é negativa. A notícia pressionava as cotações dos bons da companhia no mercado internacional, enquanto a liquidez das debêntures diminuía.
O movimento vem um dia após outra agência global de classificação de risco, a S&P, ter também reduzido a nota atribuída à Aegea, de ‘BB-‘ para ‘B+’, também com perspectiva de baixa.
Assim como a a S&P, a Fitch atribuiu a decisão ao adiamento, pela Aegea, da divulgação do balanço consolidado de 2025, que deveria ter acontecido na terça-feira (31).
Nesta quinta-feira, a empresa de saneamento afirmou em seu site que pretende divulgar o documento em 8 de abril.
Por contrato, se a companhia não divulgar o balanço em até 7 dias úteis após o prazo previsto, debêntures das 7ª e 9ª emissões, que somam R$ 1,1 bilhão, pode ter vencimento antecipado.
“A Fitch considera esse atraso como evidência de menor qualidade e transparência das informações financeiras, resultando em um impacto negativo no rating relacionado à governança”, diz trecho do relatório.
A agência acrescentou ainda que a não publicação das demonstrações financeiras dentro do prazo regulamentar pode desencadear uma revisão mais aprofundada e ter implicações negativas para a classificação de crédito.
Risco de governança
A Aegea já havia reapresentado seus balanços de 2022 a 2024 em setembro passado, após uma reavaliação do tratamento contábil aplicado a lucros não realizados em transações com partes relacionadas, especialmente em atividades de construção sob contratos de concessão de saneamento.
O movimento acontece em meio a denúncias publicadas pelo portal UOL de que executivos da companhia confessaram pagamento de propina a políticos de seis Estados para obter concessões de água e esgoto na última década.
Em fato relevante publicado em fevereiro passado, a Aegea afirmou que fechou acordo com o Ministério Público Federal (MPF), para encerrar “de forma definitiva os temas de integridade relacionados a circunstâncias anteriores a 2018”, “reforçando o compromisso com elevados padrões de ética, transparência e integridade corporativa”.
Muito crescimento, muita dívida
Uma das maiores empresas de saneamento do Brasil, a Aegea afirma operar em 890
cidades, atendendo 39 milhões de pessoas. Seus principais acionistas são Equipav (52% do capital total), Fundo Soberano de Cingapura (35%) e Itaúsa (13%).
Entre o fim de 2020 e setembro do ano passado, o desempenho operacional do grupo, medido pelo Ebitda (lucro antes de impostos, juros, amortização e depreciação, na sigla em inglês) subiu de R$ 1,3 bilhão para R$ 11,2 bilhões.
No fim de setembro de 20,25, a dívida líquida proforma da companhia somava R$ 41,4 bilhões. Isso equivalia a 3,7 vezes o Ebitda. Pelos cálculos da S&P, no entanto, essa métrica era de 4,3 vezes. Segundo dados do balanço, a Aegea tinha cerca de R$ 17 bilhões em debêntures no mercado.
Aegea depende do acesso a capital com preços competitivos para sustentar o crescimento dos negócios e manter a competitividade.
No terceiro trimestre de 2025, a holding da Aegea captou R$ 6,3 bilhões em dívida, sendo R$ 2,3 bilhões no mercado local, com prazo de 7 anos, e R$ 4 bilhões no mercado internacional, com prazo de 10 anos.
Caixa versus vencimentos
No fim de setembro de 2025, a Aegea tinha R$ 7,2 bilhões em caixa, com R$ 3,7 bilhões a vencer nos 12 meses seguintes. A companhia tem vencimentos mais relevantes em 2029 (R$ 5,91 bilhões), 2030 (R$ 7,45 bilhões) e 2031 (R$ 6,42 bilhões).
Bonds caem, debêntures perdem liquidez
As cotações dos títulos da Aegea no mercado internacional tiveram queda abrupta desde a quarta-feira, como mostram os gráficos abaixo.

Fonte: XP
Em relação às debêntures, o volume de negócios diminuiu por conta da expectativa em relação ao balanço da companhia, disse um analista de crédito, sob condição de anonimato.
“A Aegea é um nome relevante para o mercado como um todo, e ninguém quer vender num preço irreal. E o mercado não encontrou o preço de equilibro desde o anúncio (de atraso na divulgação do balanço”, disse o profissional.
“O foco do mercado não é no resultado em si, mas nos ajustes contábeis que a companhia deve apresentar. O mercado está acalmando um pouco agora que entendeu que são mais questões contábeis do que financeiras”, afirmou o analista.
(Com reportagem adicional de Fabíola Gomes)



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