Em quais setores a qualidade do crédito vai sofrer mais se a guerra no Oriente Médio se prolongar?
Companhias aéreas e de produtos químicos, como é de esperar, estão entre as mais vulneráveis, segundo estimou a Moody’s em relatório nesta terça-feira (31).

Porém, a construção civil e pesada também deve ser fortemente impactada, já que países da região produzem 55% do calcário fundente, essencial na produção de ferro e aço.
Também de lá provém grande parte da produção global de etileno (23%), amônia (21%), fertilizantes (20%) e alumínio (17%), com impactos possíveis para siderurgia e agronegócio, só para citar alguns dos setores mais relevantes da economia brasileira.

Fonte: Moody’s
Canais de contaminação do crédito
Segundo a Moody’s, um conflito prolongado representa riscos de crédito globais por meio de três canais principais:
Energia e cadeias de suprimentos
Os mercados de energia e as cadeias de suprimentos seriam o principal canal de transmissão do estresse de crédito. Nesse cenário, o petróleo Brent teria uma média de
cerca de US$ 135 por barril no segundo trimestre de 2026, permanecendo acima de US$ 100/bbl durante o verão do Hemisfério Norte, antes de recuar para perto de US$ 90 o barril até o final do ano.
Fertilizantes, metais como alumínio e hélio também enfrentariam choques secundários.
O choque resultante nos preços e na volatilidade pressionaria outros preços para cima, aumentando os custos de produção, enfraquecendo as margens e pressionando os fluxos de caixa
em diversos setores, mas especialmente nos setores de uso intensivo de energia. Indústrias baseadas em cadeias de suprimentos altamente sincronizadas enfrentariam
uma interrupção operacional substancial, à medida que o transporte marítimo fosse redirecionado, as taxas de frete permanecessem altas e os prazos de entrega se tornassem menos previsíveis. Economias dependentes de importações enfrentariam uma disponibilidade mais restrita de combustível, alimentos e insumos industriais. Interrupções nas cadeias de suprimento de fertilizantes, em particular, levarão a colheitas menores e preços mais altos das safras, aumentando os riscos sociais relacionados à acessibilidade.
Condições macrofinanceiras
A reação nos mercados de ações e crédito aos efeitos da guerra tem sido relativamente modesta até agora. Mas uma interrupção prolongada provavelmente provocaria maior aversão ao risco, diz o relatório.
Isso ampliaria os spreads de crédito de alto rendimento em relação aos níveis historicamente estreitos, levaria a maior volatilidade e a uma reprecificação das ações e impulsionaria saídas sustentadas de capital dos mercados emergentes.
Com as pressões inflacionárias reforçadas por preços mais altos de energia, os bancos centrais manteriam a política monetária restritiva. No Brasil, isso significaria Selic alta por mais tempo.
Os tomadores de empréstimos com vencimentos de curto prazo ou dívidas com taxas flutuantes experimentariam um aumento abrupto nos custos do serviço da dívida.
Os bancos —reagindo a um enfraquecimento esperado da qualidade dos ativos — apertariam ainda mais os critérios de concessão de crédito, restringindo ainda mais a disponibilidade de crédito.
Riscos geopolíticos e de segurança
Danos a portos, aeroportos e centros logísticos interromperiam os fluxos comerciais além do setor energético, enquanto prêmios de risco mais altos para seguros e transporte marítimo aumentariam os custos de transporte, mesmo onde as rotas permanecessem abertas, afirma a Moody’s.
Ao mesmo tempo, restrições ao espaço aéreo prejudicariam as companhias aéreas e afetariam o turismo e os serviços.
Uma interrupção prolongada também aceleraria mudanças estruturais de longo prazo nos gastos com defesa, nos padrões comerciais e no design da cadeia de suprimentos.
Uma vez que as empresas se adaptem a um ambiente de maior risco, é improvável que as cadeias de suprimentos reestruturadas para resiliência voltem a ser como eram.
Isso estenderia o impacto no crédito muito além do choque inicial, contribuindo para um ambiente operacional global mais fragmentado, mais caro e menos previsível, conclui a agência de classificação de risco.
E o Brasil?
No relatório, a Moody’s não menciona especificamente o Brasil. Em relação à América do Sul, a agência cita que a matriz energética diversificada limitam a exposição das dívidas soberanas da região aos efeitos da guerra.
Por setores, o de papel e celulose pode ser até comparativamente favorecido em termos globais.
Isso porque os preços persistentemente altos do petróleo e do gás aumentariam os custos de transporte, logística, o que faria produtores europeus enfrentarem a maior pressão de custos.
Além disso, as fábricas da América Latina e da América do Norte se beneficiam de maior autossuficiência energética.
“Custos de frete mais altos e tempos de trânsito mais longos restringiriam as exportações de celulose para a Ásia e prejudicariam os produtores não integrados expostos a preços globais mais altos de celulose e fibra reciclada”, diz o relatório.
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