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Raízen: Desarticulação deixa investidores domésticos em desvantagem

A desarticulação dos credores locais que detêm R$ 12 bilhões em créditos da Raízen compromete as chances de recuperação dos valores e fragiliza seu poder de negociação em meio à notícia de que a empresa avalia recorrer a uma recuperação extrajudicial, de acordo com três fontes familiarizadas com o tema.

A Raízen é uma empresa integrada de energia e a maior produtora mundial de açúcar e etanol de cana-de-açúcar, fundada em 2011 como uma joint venture entre a petroleira britânica Shell e a holding brasileira de infraestrutura e energia Cosan.

Até o momento, os credores locais detentores de CRA (com R$ 6,6 bilhões de créditos) e debenturistas não formaram grupo organizado e nem entraram em contato com a empresa para buscar seu lugar na mesa de negociação, segundo a primeira fonte.

A lentidão dos credores locais para formar um grupo organizado e buscar assessores jurídicos e financeiros acaba prejudicando as chances deste grupo de recuperar uma fatia maior do seu crédito, disseram as três fontes consultadas.

Quanto mais demorarem para se posicionar neste processo de renegociação, maior a chance de sofrerem com haircut (desconto) para recuperar seu crédito, acrescentaram as três fontes.

Enquanto isso, bondholders e bancos já se organizaram, separados em dois grupos, e já conversam com a empresa buscando garantir a melhor recuperação possível dos seus créditos, observou a primeira fonte.

Em carta enviada à empresa, um grupo de bondholders sugere à empresa uma injeção de capital de até R$ 25 bilhões para reequilibrar sua estrutura de capital. O número apontado por este grupo, porém, está muito distante da realidade em discussão na companhia, disse a primeira fonte.
 
Alternativas em discussão

Desde o final de 2025, acionistas da Raízen discutiam a possibilidade de um aporte significativo para reestruturar a dívida financeira da companhia, cuja alavancagem atingiu 5,3 vezes a dívida líquida/EBITDA no 3º trimestre da safra 2025/26, encerrado em dezembro.

As emissões de dívida da Raízen não estão sujeitas a covenants, índices máximos de endividamento que, se atingidos, dão direito aos credores de antecipar o recebimento de seus créditos.

A dívida bruta da Raízen totalizou R$ 70 bilhões no final do período, sendo R$ 50,8 bilhões em moeda estrangeira e R$ 19 bilhões em moeda local.

A empresa encerrou dezembro com caixa e equivalentes de R$ 17 bilhões e tem uma linha de crédito rotativo (revolver credit facility) de R$ 5,5 bilhões. 

Em comunicado ao mercado, a Raízen informou em 4 de março que avalia alternativas para fortalecer a estrutura de capital, incluindo a possibilidade de uma recuperação extrajudicial.

Na recuperação extrajudicial, credores e devedores podem negociar livremente os termos do acordo, que é submetido a homologação judicial.

Ainda segundo o comunicado, a proposta em discussão prevê um aporte de R$ 4 bilhões na Raízen, sendo R$ 3,5 bilhões do Grupo Shell e R$ 500 milhões da holding Aguassanta Investimentos, da família de Rubens Ometto, dona da Cosan. 

A Cosan, que tem a família Ometto e o BTG Pactual como principais sócios, ainda não chegou a um acordo sobre os termos de uma eventual participação no aporte, noticiou a mídia local. 

Os grupos e a empresa seguem conversando, mas ainda não está claro se há uma solução intermediária entre o que os credores sugeriram e o que a empresa está disposta a fazer, disse a segunda fonte. 

“No limite o que acontece é que, se a empresa pedir uma RE, ela só precisa de 50% mais um dos credores para aprovar o seu plano de reestruturação de dívida,” disse a mesma fonte.

Neste cenário, os bancos e bondholders não precisariam da participação do credor local para aprovar o plano de reestruturação de dívida, disse a segunda fonte. “No caso da RE, uma opção para os credores locais é tentar participar como ‘credores colaboradores’ para evitar tomar um haircut,” acrescentou.

Esse impasse já tem afetado potenciais emissões de dívida no mercado local, tanto da Cosan como de suas controladas, como da operadora logística ferroviária Rumo, cuja oferta foi adiada e provavelmente será cancelada, e da distribuidora de gás natural encanado Comgás, que também está com uma oferta na rua, afirmou a segunda fonte.  

Há uma pressão por uma solução amigável, com a possibilidade de converter parte da dívida da Raízen em equity (ações), e aí os bondholders podem entrar na capitalização, afirmou a segunda fonte.

“Pedir uma RE parece ser o caminho natural, porque aí a empresa consegue executar [este plano de reestruturação]”, disse a segunda fonte. 

“A empresa não vai conseguir mudar todos os contratos de dívida, especialmente os CRAs, que são muito pulverizados na pessoa física. Mas antes de pedir a RE, a Raízen vai alinhar todo o jogo com os credores para que o processo seja concluído o mais rápido possível, acrescentou a mesma fonte.   

A Raízen anunciou em fevereiro a contratação da Rothschild & Co como assessora financeira e dos escritórios Pinheiro Neto Advogados e Cleary Gottlieb Steen & Hamilton como assessores jurídicos.

Respostas

A empresa não retornou email com pedido de comentário.

Consultada, a Oliveira Trust que atua como agente fiduciário em CRAs da Raízen, respondeu que prefere ficar “isenta de posicionamento sobre situações de clientes”.

A Vortx, outra agente fiduciária em CRAs da Raízen, declarou que se pronuncia exclusivamente por seus canais oficiais.

A Opea, maior emissora de títulos da Raízen, afirmou que não vai se manifestar a respeito do caso.

A Pentágono, agente fiduciária em emissões de debêntures da Raízen, afirmou que só vai prestar esclarecimento para os investidores.

O BTG Pactual também não respondeu imediatamente a um pedido para comentar.

Com reportagem adicional de Aluísio Alves

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