O mercado de duplicatas, uma das mais conhecidas fontes de capital de giro para empresas médias e pequenas no Brasil, com um estoque estimado em cerca de R$ 200 bilhões, deve crescer pelo menos cinco vezes com o advento da versão digital.
Essa é a previsão ‘conservadora’ de Leandro Vilain, presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), entidade que tem 127 instituições financeiras entre suas sócias.
“Alguns falam em mais de R$ 10 trilhões, então não seria nenhum exagero prever R$ 1 trilhão”, disse o executivo em entrevista à Investire.
Criada por uma lei de 2018, a duplicata escritural conduz todos esses documentos para uma plataforma unficada, sob supervisão do Banco Central.
É um sistema pensado para dar mais transparência ao sistema, evitando, por exemplo, que um emissor use uma mesma duplicata para obter vários adiantamentos em diferentes bancos., dada a ausência de interlocução entre eles.
O resultado são taxas de juros mais altas. Pelos dados do BC, a taxa média de desconto de recebíveis superava 20% ao ano em agosto, último dado disponível, mas tende a ser maior fora dos recebíveis de cartões de crédito.
Pelo calendário do BC, o novo sistema entra em vigor janeiro de 2026, em fase piloto, o que significa que o registro eletrônico, num primeiro momento, será facultativo. Com ele, as duplicatas precisarão passar por uma registradora credenciada pelo BC. Atualmente são sete no país, incluindo CERC, TAG, Núclea, CRDC, CIP e B3.
Num primeiro momento, contudo, muitos bancos devem ter dificuldades para sincronizar seus sistemas aos das diferentes registradoras, segundo Vilain. Por isso, a ABBC está desenvolvendo uma espécie de API, uma interface que permite a conexão entre diferentes linguagens tecnológicas.
“Nossa meta é estarmos prontos para operar em janeiro de 2026”, disse o executivo.
A dificuldade de ‘diálogo’ entre os sistemas das diferentes registradoras tem sido um dos principais desafios para a implementação da duplicata escritural. Agora, mesmo com a entrada em vigor da inovação, instituições financeiras de médio e pequeno portes podem ter mais dificuldade para de adaptarem em tempo hábil, deixando-as em desvantagem em relação aos concorrentes maiores.
Em 2027, o sistema eletrônico de duplicatas passará a ser obrigatório.
Corrida no governo para duplicatas deslancharem
Fontes do mercado ouvidas pela Investire contam que esferas do governo, incluindo Ministério da Fazenda e Banco Central, vêm intensificando a movimentação nos últimos meses para que a duplicata escritural já comece com força em 2026.
Um dos esforços nesse sentido é tentar reduzir a burrocracia para registro de garantias pelas empresas que emitem as duplicatas. Assim, empresas como indústrias poderiam apresentar imóveis e outros ativos. Em troca, os concessores de recursos teriam condições de oferecer taxas de juros menores.
“A percepção é de que há muito dinheiro empoçado que pode servir de garantia”, disse um executivo do setor bancário a par das discussões, sob condição de anonimato.
Novo gatilho para os FIDCs?
Embora se trate de uma operação inicialmente bancária, o desconto de duplicatas vem sendo monitorado com atenção pelos participantes do mercado de capitais.
É o caso das gestoras especializadas em fundos de direitos creditórios, os FDICs. Isso porque a transição para o sistema eletrônico também facilitaria a montagem de fundos tendo as próprias duplicatas como referência.
Uma das explicações para o interesse é o fato de que muitas operações com duplicatas são da ordem de R$ 100 milhões a R$ 500 milhões, montantes suficientes para custear a montagem de uma estrutura de FIDC.
“Essa é a próxima onda do mercado de capitais no Brasil”, disse Vitor Bidetti, CEO da Integral Investimentos, uma das gestoras de FIDCs mais tradicionais do mercado.
Conexão da borda
A cobiça de bancos, de fintechs e de entidades do mercado de capitais pelas duplicatas eletrônicas explica-se não apenas pelo potencial de dar maior transparência aos recebíveis das empresas, mas também pela possibilidade de montar estruturas de crédito a partir de um volume mais amplo de informações.
Isso porque as emissoras de duplicatas terão a possibilidade de dar acesso à sua agenda de recebíveis, com dados históricos e futuros, o que no jargão do setor é chamado de conexão da borda. Com base no histórico de vendas do negócio, as instituições podem oferecer antecipação de recebíveis com mais visibilidade.
O que será do crédito privado após reviravolta nos impostos?
Para especialistas, Selic ainda alta em 2026 manterá fluxo de recursos para debêntures incentivadas
O mercado de crédito privado pode ter uma nova guinada no Brasil, especialmente as debêntures incentivadas, após o Congresso Nacional ter barrado o plano do governo de elevar impostos sobre investimentos, preveem especialistas.
E isso não tem a ver apenas com a questão tributária. Com a Selic a 15% anual pelo menos até dezembro e a expectativa de que não caia muito em 2026, esses papéis devem continuar oferecendo rentabilidades superiores aos de outros produtos de investimentos.
Segundo o gestor da Hike Capital Angelo Belitardo, é possível que o retorno das debêntures comece a cair, dado o impacto nos preços do enorme fluxo de recursos para esses papéis nos últimos meses, mas a classe ainda seguirá atrativa.
Nesse sentido, fundos que investem em debêntures de baixo risco, com liquidez alta (resgate em 30 dias) e com hedge para proteção contra possíveis viradas do mercado têm estado entre os líderes de captação de recursos, diante de retornos em 12 meses acima de 15%, e isentos de IR.
Confira alguns deles na tabela abaixo:
Fundo Rentabilidade em 12 meses
ARX Hedge FIC Incentivado 18,08%
Vinland Infra Ativo Incentivado 17,58%
SPX Seahawk Deb Incentivas 17,62%
Fonte: XP. Dados preliminares até 10/10/2025.
“Não tem para onde correr”, afirmou Belitardo.
Mesmo em setembro, antes da votação do Congresso que poderia ter aprovado o aumento de impostos sobre investimentos, o mercado de debêntures de infraestrutura demonstrou uma força impressionante. Alguns temiam que isso provocasse um impacto negativo nos preços.
No entanto, o que se viu foi a continuidade do fechamento de taxas. Ou seja, os prêmios das debêntures em relação aos títulos públicos comparáveis continuou caindo, mesmo com os papéis de empresas sendo de maior risco.
Assim, as emissões de debêntures incentivadas atingiram o recorde de R$ 97,3 bilhões nos primeiros oito meses de 2025, 10,4% a mais do que na mesma etapa de 2024, segundo dados mais recentes da Anbima. Só em agosto, as empresas captaram R$ 8,5 bilhões, o patamar mais alto para este mês na série histórica.
Alguns no mercado acreditam que essa marcha pode se prolongar nos próprios meses, com algumas emissões de rating AAA (nota máxima de qualidade) chegando a embutir uma rentabilidade equivalente a 90% ou mesmo 85% do CDI.
Em relatório, a Occam avaliou que dois fatores podem explicar esse movimento: o primeiro é que o benefício de carregar ativos de infraestrutura aumentou.
Além disso, “o mercado para esses ativos (debêntures) está mais líquido e ganhando eficiência, de forma que o benefício fiscal embutido está sendo mais bem precificado”, disse a gestora.
A Medida Provisória 1.303/25 previa que, além das debêntures incentivadas, títulos como letras financeiras imobiliárias (LCIs) e do agronegócio (LCAs), assim como os certificados de recebíveis (CRI/CRA), passassem a sofrer uma alíquota de IR de 5%, o que não vai mais acontecer.
IOF sobre FIDCs prejudica os mais pobres, diz advogado
Após a derrubada da proposta de tributação sobre títulos incentivados, representantes do mercado financeiro agora concentrar esforços em tentar suspender a cobrança de do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) em fundos de recebíveis, os FIDCs.
Estabelecida em junho pelo Ministério da Fazenda, a alíquota de 0,38% sobre o setor teve reação imediata dessa indústria, alegando que, pela Constituição, o IOF só pode incidir sobre títulos e valores mobiliários, o que não seria o caso dos FIDCs.
Mas sem até agora conseguir com argumento jurídicos convencer o Supremo Tribunal Federal (STF) a voltar atrás na decisão de julho favorável ao governo, os críticos da medida estão partindo para a esfera econômica.
“Essa medida é uma forma de tributar o pobre”, disse Eduardo Salomão Filho, sócio do escritório Levy & Salomão Advogados.
O argumento do advogado é de que esses fundos fornecem uma parte importante dos recursos buscados pelo comércio varejista para capital de giro. Com o IOF, o custo de captação encarece e os lojistas acabam repassando parte disso para os consumidores.
A gestora Ouro Preto, uma das maiores do país no setor, estimou que cerca de 3 milhões de empresas podem estar sendo atingidas pela medida e que a tendência é que elas, a maioria pequenos varejistas, acabem repassando os custos para os clientes.
A grita no mercado cresceu porque, na mesma decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes, as operações de risco sacado, por entender que elas não são transações de crédito, mas sim uma compra e venda de recebíveis entre duas partes.
A Confederação Nacional das Instituições Financeiras (FIN) solicitou Moraes que reconsidere a decisão favorável ao governo.
Além do Levy & Salomão, o Lefosse e outros escritórios de advocacia vem contestando a cobrança na Justiça e cobrando explicações da Receita Federal. Neste caso, os críticos alegam que o decreto do governo tem finalidade arrecadatória, o que não é a finalidade do tributo, que deveria ser de regular e evitar distorções.
A Receita Federal não se pronunciou oficialmente sobre a cobrança.
O receio de profissionais do mercado é de que, após o Congresso Nacional derrubar a tentativa de aumentar impostos sobre outros produtos de investimentos, dentre outras medidas, o governo aja em outras frentes para tentar minimizar a perda de arrecadação e manter metas fiscais para 2026.
Nesse sentido, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já sinalizou que buscará “alternativas”.
Enquanto uma definição não ocorre, o mercado de fundos de recebíveis teve desaceleração. Em setembro, os FIDCs registraram saída líquida de R$ 7,8 bilhões, na contramão do que vinha exibindo nos meses anteriores.
Para gestoras de recursos, a tendência mais ampla do setor ainda é de crescimento. Isso porque as taxas de juros elevadas diluem o efeito do IOF sobre a rentabilidade dos FIDCs. Isso deve manter o apetite de muitas empresas para captar mais recursos.
“No mercado como um todo o efeito deve ser pequeno”, disse Ricardo Propheta, sócio fundador da BRZ Investimentos.


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