As condições propícias para empresas e investidores vêm fazendo o mercado de crédito privado brasileiro bater sucessivos recordes nos últimos anos, incluindo 2025. Algo, porém, vem crescendo ainda mais rápido: os litígios na justiça.
Na esteira de casos ruidosos mais recentes, incluindo Braskem e Banco Master e, mais recentemente, Ambipar, os contenciosos de investidores exigindo reparos por perdas contra gestores, emissores e outros agentes envolvidos nos mercados de debêntures, certificados de recebíveis e FIDCs vêm acelerando.
Não há dados precisos sobre o número de processos envolvendo títulos privados. Mas basta uma consulta ao portal do governo jusbrasil.com.br sobre debêntures ou Fiagros para perceber que há centenas de casos espalhados pela justiça em todo o país.
Como consequência, a área de contenciosos vem crescendo e se tornando umas das divisões mais lucrativas dos maiores escritórios de advocacia especializados em mercados de capitais no país. No Vieira Rezende, por exemplo, esse segmento já representa 1/3 de uma equipe de 100 profissionais.
Para Lucas Hermeto, sócio da área no escritório, o aumento dos casos reflete dois fatores principais. O primeiro é a percepção crescente de que alguns membros da cadeia do crédito privado têm se aproveitado de falhas regulatórias e de baixa punição a malfeitos para levar ao mercado operações com estruturas frágeis de governança.
Essa tendência vem se mantendo, mesmo após o advento da Resolução CVM 175, de 2022, que deixou mais claras as responsabilidades de administradores e gestores, por exemplo, com impacto em instrumentos como FDICs e fundos imobiliários.
“Há muita gente agindo de forma negligente para tentar escapar das responsabilidades”, disse Hermeto à Investire.
O advogado evitou citar casos específicos, mas disse que o volume maior de pedidos de reparos acontece em papéis de empresas do agronegócio e imobiliário.
Enquanto isso, vem crescendo um movimento ativista entre investidores institucionais, como bancos, fundos de pensão e gestoras, além de family offices.
É o caso da Ambipar. Nas últimanas, com a intensificação de uma crise de crédito, a companhia de gestão de resíduos passou a enfrentar judicialmente investidores como Bradesco e o Opportunity, entre outros.
Segundo ele, isso acontece em meio à percepção de baixa ação fiscalizatória para exigir o cumprimento das regulamentações e proteger os investidores, o chamado enforcement.
“Tem muito pouca punição no mercado”, disse ele.
Fundos de shoppings, o retorno
Os fundos imobiliários de shopping centers têm apresentado um das melhores performances entre os setores do Índice de Fundos Imobiliários (Ifix) na B3, com alta ao redor 18% no ano até setembro, após encerrarem 2024 com queda de 12%.
O setor ilustra o paradoxo da economia brasileira que, apesar do juro no maior nível em quase duas décadas, mantém os índices de desemprego nas mínimas históricas. Além disso, os shoppings vêm mostrando resiliência diante da expansão constante do comércio eletrônico.
Além disso, os baixos níveis de vacância e de inadimplência e a gestão prudente dos indicadores financeiros mantêm esses fundos como boas alternativas de investimentos, segundo o Itaú BBA.
“Do ponto de vista operacional e mesmo diante de uma política monetária restritiva, seguimos observando melhora dos fundos imobiliários de shoppings”, afirmou o Itaú BBA em relatório recente, no qual recomendou a compra de quatro deles.
Em 2024, o setor movimentou R$ 198,4 bilhões em vendas, alta de 1,9% sobre o ano anterior, segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), que prevê nova alta de 1,6% neste ano, para R$ 201,6 bilhões.
O Brasil encerrou 2024 com 648 shoppings, após nove inaugurações, com aumento de 182 mil m² na área bruta locável (ABL). Neste ano devem acontecer mais 17 estreias, com avanço de 315,9 mil m² em ABL.
O segmento de shopping centers representa hoje 13% do Ifix, índice dos fundos imobiliários negociados na B3 e que tem um total de 115 fundos.
O potencial de alta futura dos fundos deve-se em parte à recuperação após anos patinando. Mesmo diante da retomada recente, os preços das cotas desses fundos ainda seguem abaixo do seu valor patrimonial. Isso reflete o fato de o setor ainda não ter conseguido recuperar os patamares pré-pandemia pela medição de receita por metro quadrado (ABL).
Por um lado, isso desestimula novas captações. De fato, as transações de shoppings envolvendo fundos imobiliários têm sido escassas, já que o alto custo de oportunidade (com Selic a 15% anuais), dificulta encontrar ativos cuja rentabilidade esperada supera esses níveis no tempo.
Por outro lado, os gestores dos fundos vêm preferindo honrar obrigações por aquisições de imóveis. Foi o caso do XPML11, que vendeu nove ativos de seu portfólio (um total de R$ 1,6 bilhão). Outros fundos têm adotado outros caminhos para otimizar seus balanços. O BBIG, por exemplo, aprovou em setembro, a emissão de novos CRIs, para reforçar o caixa.
Inadimplência e vacância controladas
Além disso, os fundos em sua maioria têm conseguido manter níveis saudáveis de qualidade.
Nos primeiros dois trimestres de 2025, a inadimplência nos shopping centers teve queda, cmesmo diante de um cenário macroeconômico desafiador. No segundo trimestre, a inadimplência geral registrada pela Abrasce ficou em 4,3%.
Em outra frente, desde 2019, em nenhum momento a taxa de vacância nos shoppings nunca superou 10%, o que é um bom sinal. A partir do segundo trimestre de 2025, houve uma leve piora na taxa de vacância. Apesar disso, os níveis continuam baixos (4,8% em junho), num nível que o BBA considera saudável.


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