Qualidade do crédito privado em deterioração: melhora só em 2028?

O mercado de capitais brasileiro enfrenta um teste relativamente novo: atravessar um grande ciclo de deterioração do crédito privado após anos de rápida expansão.

Com a inadimplência em alta, o aumento das renegociações e o avanço das recuperações judiciais e extrajudiciais, a questão que mobiliza o setor é quanto tempo será necessário para que os indicadores voltem a melhorar de forma consistente.

Os sinais antecedentes não são animadores. Segundo o Agente Tomé, plataforma de dados da Liqi Assets, a inadimplência dos créditos que servem de lastro para operações de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e do Agronegócio (CRAs) aumentou em nove das 15 maiores securitizadoras do país no primeiro semestre de 2026.

No mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), 618 fundos registraram aumento da inadimplência em relação ao patrimônio líquido nos últimos dois meses.

“Antes de melhorar, piora”, resumiu Nathalia Machado, co-CEO da Canal Securitizadora, durante podcast do Crédito Privado 360.

Crônica de uma crise anunciada

Os indicadores refletem os desdobramentos de um mercado que cresceu rapidamente, favorecido pela elevada liquidez e por incentivos tributários, mas que agora enfrenta um ambiente macroeconômico mais adverso.

A expansão também colocou em evidência a importância da governança, da análise dos devedores e dos mecanismos de proteção dos investidores.

Para Fabio Coelho, presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), a sucessão de eventos de crédito também evidenciou falhas de governança, que demandam uma atuação mais forte da regulação.

Ciclos de expansão, deterioração e estabilização fazem parte da indústria do crédito. A questão é que, quanto mais acelerado o crescimento e maior a exposição a devedores sujeitos a condições financeiras adversas, mais difícil pode ser o ajuste posterior.

O agronegócio oferece um exemplo dessa dinâmica. O estoque de CRAs cresceu mais de seis vezes desde 2020, alcançando quase R$ 200 bilhões no fim de 2025.

A expansão ocorreu em um período no qual a taxa Selic passou de 2% para 15% ao ano, elevando o custo de financiamento e pressionando empresas mais endividadas.

Limpeza das carteiras deve levar tempo

A pressão tende a alcançar outros segmentos do mercado de capitais, ainda que os efeitos variem conforme as características de cada operação.

É o caso dos FIDCs, cujo patrimônio cresceu cerca de cinco vezes desde 2020, chegando a aproximadamente R$ 820 bilhões em setembro de 2026, segundo dados da Anbima.

Esses fundos contam com mecanismos de proteção que podem ajudar a absorver perdas, entre eles a subordinação, pela qual determinadas classes de cotas suportam perdas antes de outras.

Isso, porém, não elimina o risco: a resiliência depende da qualidade dos recebíveis, da estrutura da operação e da suficiência das proteções disponíveis.

A experiência recente com o agronegócio também vem elevando o rigor na análise de novas operações de FIDC.

“O próximo trilhão da indústria de FIDCs vem do lastro confiável”, afirmou Delano Macêdo, sócio da Solis Investimentos, durante o I Congresso Brasileiro de Crédito Privado, em setembro.

O movimento reforça a importância do acompanhamento contínuo dos ativos, para além da análise realizada no momento da aquisição. Monitorar a evolução dos recebíveis ao longo da vida da operação pode ajudar a identificar sinais de deterioração antes que eles se traduzam em perdas mais expressivas.

Ainda assim, a recuperação dos indicadores não será imediata. A formação de novas carteiras com ativos de melhor qualidade leva tempo, assim como a renegociação ou liquidação das operações problemáticas que já estão no sistema.

A expectativa é de que 2027 continue marcado por renegociações e reestruturações. José Alexandre Freitas, CEO da Oliveira Trust, também não vê uma melhora consistente no curto prazo.

“Eu não veria uma melhora nos próximos 12 a 18 meses”, afirma.

A deterioração aparece antes da insolvência

Parte da pressão sobre o crédito ainda é administrada por meio de negociações entre emissores e investidores, antes que as dificuldades resultem em processos formais de insolvência.

Somente em 2026, foram realizadas 2.300 assembleias de titulares de CRIs e CRAs para deliberar sobre a não declaração de vencimento antecipado de dívidas, segundo dados do Agente Tomé.

As reuniões tratam de situações em que os emissores descumprem obrigações contratuais, como limites de endividamento, índices mínimos de garantia ou exigências de manutenção de fundos de reserva.

Nessas circunstâncias, os credores podem conceder um waiver, dispensando o vencimento antecipado e permitindo a continuidade da operação sob as condições acordadas.

Em um cenário favorável, a renegociação oferece fôlego para que a empresa reorganize o caixa e retome a capacidade de pagamento. Mas a concessão também pode sinalizar problemas mais profundos.

Quando não há geração de caixa suficiente para sustentar a dívida, o acordo pode apenas adiar uma reestruturação mais abrangente.

Por isso, a frequência dos pedidos de waiver merece atenção: o descumprimento de cláusulas contratuais nem sempre resulta em insolvência, mas pode anteceder uma recuperação judicial ou extrajudicial.

Recuperações judiciais perto do pico

Os dados de insolvência reforçam a perspectiva de que o ciclo ainda não chegou ao fim.

Segundo o Monitor RGF-Bizdoc, com dados compilados pela Opea, 6.341 empresas estavam em recuperação judicial em junho de 2026, número próximo do pico da série histórica.

O agronegócio se destaca negativamente: 1.263 produtoras do setor estavam nessa situação, alta de 66% em relação a junho de 2025. Consultorias projetam que o pico das recuperações judiciais no segmento ocorra entre o fim de 2026 e 2027.

A preocupação é que as dificuldades não fiquem restritas ao campo. Outros segmentos, como varejo e mercado imobiliário, também estão expostos a condições de financiamento restritivas e a desafios próprios de geração de caixa.

O alcance e a duração desse movimento, contudo, dependerão da evolução dos juros, da atividade econômica e da capacidade de cada setor de absorver o endividamento acumulado.

O que a experiência do setor bancário ensina

A experiência dos bancos oferece uma referência para entender por que a normalização do crédito pode ser demorada.

Fonte: Banco Central.

A trajetória de grandes instituições, como Bradesco, Santander e Banco do Brasil, ajuda a ilustrar como mudanças na qualidade das carteiras de crédito podem exigir períodos prolongados de ajuste.

A comparação, porém, deve levar em conta as diferenças entre o crédito bancário e o mercado de capitais, tanto na composição dos devedores quanto nos mecanismos de renegociação e absorção de perdas.

O paralelo serve menos para prever uma data de recuperação do que para mostrar que a queda dos juros não encerra automaticamente um ciclo de deterioração.

Mesmo quando as condições macroeconômicas começam a melhorar, os problemas acumulados nos balanços podem continuar aparecendo por algum tempo.

Mais garantias e renegociações preventivas

O ciclo atual já torna os investidores mais exigentes na estruturação das operações. A tendência é de maior atenção a garantias, covenants — cláusulas que estabelecem obrigações e limites para os devedores — e documentação contratual mais robusta.

Também deve ganhar espaço o uso de ferramentas preventivas, como mediação, medidas cautelares e acordos negociados antes de um pedido formal de recuperação judicial ou extrajudicial.

A antecipação pode ampliar as possibilidades de negociação e evitar que dificuldades de liquidez se transformem em disputas mais complexas.

Esses instrumentos, porém, não eliminam o risco de crédito. Sua eficácia depende da capacidade de pagamento do devedor, da viabilidade econômica da operação e das condições negociadas com os credores.

A queda dos juros pode aliviar o custo do financiamento, mas não resolve imediatamente os desequilíbrios acumulados durante os anos de expansão.

Até meados de 2027, pelo menos, o ciclo de queda da Selic não deve ser suficiente para aliviar a pressão sobre setores mais machucados, como o agronegócio e o varejo, segundo Márcio Teixeira, head de securitização da Opea. Logo, as reestruturações de dívida e os pedidos de recuperação judicial e extrajudicial devem seguir em alta.

“A queda chegou. O alívio, ainda não. A pergunta não é só quanto os juros vão cair. É quem consegue esperar por eles”, afirmou Teixeira a jornalistas.

Com a inadimplência pressionada e o pico das recuperações judiciais ainda no horizonte, o mercado de capitais deve continuar em fase de ajuste ao longo de 2027.

Se a melhora ficará para 2028, ainda é cedo para afirmar.

Por enquanto, os sinais apontam para um processo prolongado, no qual a recuperação dependerá não apenas das condições macroeconômicas, mas também da qualidade dos ativos, da capacidade de pagamento das empresas e da resolução das dívidas problemáticas.


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