Tokens de crédito privado aceleram na esteira de puxadinho regulatório

Mercado de capitais pulsante, novas ferramentas tecnológicas, criatividade e regulação precária. Essa combinação tem permitido uma expansão acelerada dos tokens de ativos de crédito privado no Brasil.

Participantes desse setor já falam em um mercado de centenas de bilhões de reais, ou até trilhão, nos próximos 4 a 5 anos.

Uma previsão dessas poderia parecer uma fantasia. E, comparativamente, mercado brasileiro de ativos de crédito privado tokenizados ainda é relativamente pequeno, cerca de R$ 9 bilhões em estoque em maio, segundo a RWA Monitor.

Um número minúsculo ante os mais de R$ 3 trilhões do mercado tradicional, metade disso só nas mãos de fundos, segundo a Anbima.

Já a tendência indica algo muito maior pode estar acontecendo. Há três anos, o montante de ativos tokenizados de crédito, entre debêntures, contratos de recebíveis e outros mal passava de algumas dezenas de milhões de reais.

Mas de carona na evolução dos produtos de investimento incentivados e de avanços regulatórios para instrumentos como os fundos de direitos creditórios (FIDCs) e o crowdfunding, um número crescente de entidades financeiras viu nos tokens como um novo eldorado do mercado de capitais.

Tokenização do crédito, o novo eldorado do mercado

Os argumentos a favor são fortes. Profissionais do mercado estimam que, da emissão de um título de crédito até a chegada ao investidor, os custos com processos caem pelo menos à metade.

Isso respeitando o processo atual, que inclui as etapas de escrituração, registro, distribuição, reconciliação, backoffice, custódia e liquidação, entre outras.

A economia poderia chegar a até 90% se o processo for via token de uma ponta à outra, o que hoje não é permitido pela regulação.

Com toda essa redução de custos, operações de securitização hoje só possíveis para emissões de dívida na casa de centenas de milhões de reais, poderiam alcançar negócios pequenos e médios, justamente o setor mais carente de crédito nos bancos.

Esses créditos podem abastecer produtos de crédito, como os próprios FIDCs, e alcançar investidores que buscam diversificação, já que estruturas pulverizadas tendem a amortecer riscos, diferente do que acontece em produtos como debêntures e CRI/CRA.

E via tokens, os produtos podem chegar a investidores de todas as classes de forma simplificada, em valores unitários baixos, com mais transparência, liquidez e retornos atrativos.

Tokenizadoras miram investimentos de fundos em 2026

E é isso o que várias instituições como AmFi (R$ 3 bilhões em ativos tokenizados), Liqi (R$ 1,5 bilhão) e Nexa (R$ 600 milhões), segundo dados de abril, já estão fazendo.

Os planos de crescimento dessas entidades merecem atenção.

A AmFi, criada em 2022, prevê elevar seu estoque para R$ 25 bilhões já no ano que vem e atingir R$ 250 bilhões em 2028.

Parte dessa onda de recursos, segundo o fundador e CEO da AmFi, Paulo David, virá de investidores institucionais e de não residentes, à procura das atraentes taxas de juros oferecidas pelos ativos de crédito no Brasil.

A Nexa planeja distribuir R$ 1 bilhão em novos produtos só neste ano.

“Estamos tentando construir para o mercado de investimentos o que o Nubank fez para o acesso bancário”, disse Lucas Danicek, fundador e CEO da Nexa, em evento recente para jornalistas.

Aparentemente, esses planos não parecem uma miragem. Não para grandes fundos de risco internacionais à caça de negócios de alto crescimento. Ambas, AmFi e Nexa, declaram que devem receber cada uma rodadas de centenas de milhões dessa classe de investidores ainda neste ano.

“Estamos trabalhando numa captação de investimento”, disse David, em evento nesta semana.

Bancos, gestoras e a B3 também entraram na era dos tokens

Sinais de um crescente interesse de instituições do mercado financeiro tradicional pela tokenização vêm se multiplicando. envolvendo aplicações mais amplas da tecnologia, não apenas para operações de crédito.

A B3 afirmou que planeja lançar em breve uma depositária tokenizada, um novo modelo de infraestrutura que funcionará em paralelo ao sistema tradicional.

E no fim de abril, a Anbima selecionou 20 projetos, de um total de 39 inscrições, para um projeto‑piloto de tokenização, que vai durar até o fim de outubro.

O piloto, em ambiente controlado, sem movimentação de recursos reais, nem investidores, envolve gigantes como Itaú, Núclea, Banco do Brasil, Caixa Econômica, VERT e Oliveira Trust, entre cera de 50 participantes.

O puxadinho regulatório

Toda essa movimentação acontece antes de uma regulação específica sobre tokens.

Atualmente, as operações de investimentos via tokens acontecem sob o guarda-chuva sob um emaranhado de resoluções da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que regulam operações plataformas eletrônicas de investimento participativo (88), ofertas públicas de maior volume (160) e a participação de fundos em tokens (175).

É um puxadinho regulatório, disse Tatiana Mello Guazzelli, sócia de Pinheiro Neto Advogados.

Ao mercado, a CVM sinalizou que deve abrir audiência pública ainda neste ano a respeito de um arcabouço regulatório específico para os ativos de investimentos tokenizados.

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