José é um veterano da indústria de empréstimo pessoal sem garantia. No começo do século, criou um negócio de empréstimos via cartões de crédito no Nodeste do país.
Com a posterior avalanche de crédito alavancada pelos bancos digitais, os inevitáveis estragos dessa exuberância e os avanços regulatórios para financiamento com garantia, o executivo mudou de rumos.
“Crédito sem garantia agora vai perder espaço no mercado”, disse ele, José Neto, cofundador e diretor de operações da Bull, plataforma white label para o consignado privado, que ajudou a fundar há cerca de um ano.
O raciocínio é simples: ao ter parte do salário inevitavelmente comprometido com o consignado, o trabalhador em apuro financeiro tem como alternativa atrasar outros pagamentos, incluindo aqueles sem garantia.
De olho nisso, instituições bancárias e do mercado de capitais vêm se movimentando para tentar crescer em avenidas como a do empréstimo com desconto em folha, para compra de veículos ou home equity, que tem o imóvel como garantia.
Nesse grupo estão instituições de diversas origens e que pivotaram – jargão do mercado para referir-se a empresas que mudaram de rumo – ou que resolveram abraçar o crédito com garantia como uma nova avenida de crescimento.
São os casos de Celcoin, que nasceu há uma década em serviços como de pagamento de contas e recarga de celulares pré-pagos, uy3, QI Tech, Zoop, Dock, entre outras.
Em geral, operam como credit as a service, fornecendo o chassi para instituições que vão oferecer o crédito ao público, mas que não têm estruturas internas completas para fazê-lo sozinhas.
Nesse mundo está também a PO27, especializada em formalizar garantias para concessão de crédito para compra de automóveis. É um atividade essencial na montagem de um FIDC, mas que muitas instituições preferem contratar de um terceiro a fazerem elas mesmas.
Com a complexidade inerente à montagem de produtos lastreados em crédito com garantia para oferta a investidores, empresas de tecnologia como a PO27 e fintechs com licenças do BC para algumas atividades reguladas enxergaram uma oportunidade para crescer.
Resultado: por meio da fintech passou a estruturação de garantias de cerca de 2,5 milhões de automóveis financiados em 2025, cerca de 1/3 do total do setor, que teve um ano recorde, segundo dados da B3. A PO27 tem como clientes no setor a Localiza e o banco C6.
“Nosso próximo alvo é também o consignado privado”, disse ao Crédito Privado 360 o sócio e vice-presidente da PO27, Daniel Stephens.

Stephens, da PO27: oportunidade no consignado privado
Crédito garantido faz mercado salivar
No outro lado do balcão, estão nomes como Recarga Pay, Pefisa – fintech do grupo Lojas Americanas – da NG.Cash, que se apresenta como banco da geração Z e uma multiplicidade de instituições de varejo e serviços que querem usar o relacionamento para também entrarem no crédito garantido.
O movimento em paralelo com o de instituições do mercado de capitais, especialmente as gestoras de FIDCs, que também vêm multiplicando as estruturas de financiamento do setor.
Uma delas é a VERT, que está preparando três fundos de consignado privado que, juntos, somam cerca de R$ 1 bilhão, dentro dos planos de diversificação da administradora e gestora de recursos.
Os prognósticos de crescimento do crédito com garantia explicam essa corrida pelo setor.
Só no consinado dos trabalhadores CLT, a expectativa de profissionais do setor é de que o estoque de empréstimos cresça cerca de 4 vezes nos próximos dois anos, para a casa de R$ 300 bilhões, à medida que problemas operacionais sejam solucionados.
No fim de 2025, esse montante era de R$ 76,9 bilhões, segundo dados do Banco Central.
Para efeito de comparação, o segmento ainda ficará atrás dos consignados de servidores públicos, de R$ 380 bilhões em dezembro, e o de aposentados e pensionistas do INSS, já na casa dos R$ 300 bilhões.
Todos querem a garantia
O pano de fundo desse apetite pelo crédito com garantia inclui reformas microeconômicas e mudanças regulatórias, questões tributárias e a popularização dos investimentos em títulos de crédito privado.
De um lado, reflete uma série de inovações criadas pelo Banco Central na última década para aumentar a concorrência no sistema financeiro, e que incluiu o Pix e o open banking.
Em outra frente, regras cada vez mais rigorosas de capital vêm levando as instituições financeiras a gradualmente perderem o interesse por linhas de crédito consideradas de maior risco.
Além disso, o crescente interesse dos investidores de varejo por produtos isentos de Imposto de Renda e com rentabilidade superior à da poupança, que num primeiro momento impulsionou produtos como LCIs/LCAs, CRIs/CRAs e debêntures, mais recentemente vem chegando também aos FIDCs.
E os FIDCs, fundos de direitos creditórios, vêm tendo o crédito com garantia, notadamente automotivo e o consignado de servidores públicos e de aposentados, como alguns de seus pilares de crescimento.
Crédito com garantia impulsiona FIDCs no Brasil

Fonte: CVM
Os dados de rentabilidade são convincentes. Mesmo as cotas seniores (mais seguras, menos rentáveis) de FIDCs lastreados por consignados têm proporcionado aos investidores rentabilidades que vão de 15% a mais de 20% anuais nos últimos 12 meses.
Essa realidade têm atraído novos investidores para FIDCs, mesmo que muitos deles não entendam profundamente os riscos associados ao produto.
Ainda assim, o avanço na estrutura dos FIDCs por parte da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) vem dando maior confiança do mercado no instrumento, explica Ricardo Propheta, sócio e CEO da gestora BRZ, uma das pioneiras do país no setor.
“Por isso, com o passar do tempo, os FIDCs vê tomando espaços (do crédito bancário)”, disse ele.
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