Os fundos de direitos creditórios (FIDCs) estão voando no Brasil. Segundo dados mais recentes da plataforma Uqbar, o estoque de ativos do setor chegou a inéditos R$ 815,5 bilhões em novembro, crescendo na contramão do mercado mais amplo de crédito privado em 2025.
Muitos nessa indústria já fazem contagem regressiva para a fronteira do trilhão de reais em ativos.
Esse movimento é uma boa notícia para empresas médias e pequenas, que viram ali uma oportunidade de tomar recursos aos quais não teriam acesso de outra forma. Nem nos bancos, nem no próprio mercado de capitais por meio de outros instrumentos.
Veteranos do mercado, contudo, já começam a coçar a cabeça. Com a Selic em 15% anuais e a perspectiva do mercado de que siga acima de 10% pelo menos até 2028, alguns já se perguntam quais negócios conseguem se manter saudáveis por vários anos pagando juros tão altos.
A maioria dos FIDCs ofertada no mercado embute remuneração superior ao CDI mesmo para as cotas seniores, as de menor risco. Em muitos casos, pode chegar a 20% ao ano. Para o tomador, que paga também a estruturação das operações, o custo da antecipação pode ser de 25%.
Nesses níveis, as transações acabam fazendo sentido para um número menor de empresas, normalmente com perfis mais arriscados, sem um histórico consistente de controle da inadimplência, o que amplia o risco para os cotistas.
O receio é de que o segmento tenha crescido recentemente apoiado numa dinâmica perversa, na qual investidores ávidos por colher rentabilidade de dois dígitos toleram abrir mão de parte da segurança e da liquidez.
“Hoje tem gente investindo em FIDC sem ter a menor ideia do que está fazendo”, disse Ricardo Propheta, sócio fundador da BRZ Investimentos, que atua no setor desde 2007.
Entre os cuidados frequentemente desprezados por novos investidores nesse instrumento em relação a produtos mais estabelecidos, como debêntures e fundos, estão a baixa liquidez, a ausência de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e o nível de complexidade muito maior.
Isso, sem contar a escassa padronização, as deficiências de governança e eventuais conflitos de interesse de um segmento que depende de uma longa cadeia de participantes para funcionar. Nesse sentido, a reforma da Instrução CVM 175 foi saudada pelos agentes como um avanço. Mas ainda há buracos na supervisão de mercado.
“O FDIC ainda não é faixa preta em governança”, disse à Investire o sócio e diretor-presidente da plataforma de serviços fiduciários Oliveira Trust, José Alexandre de Freitas.
Mesmo assim, a demanda dos investidores segue forte, dando amparo para emissões cada vez menos testadas e com maiores riscos. “Tem uma avalanche de estruturas chegando e algumas delas vão fazer água”, acrescentou Freitas.
Investidores institucionais em alerta
Diante disso, investidores institucionais vêm alertando para os riscos embutidos em ciclos de alto crescimento o atual.
O receio é de que o boom atual possa estar semeando novos casos Americanas, em 2023, ou mais recentemente, da Ambipar.
Em carta recente aos seus cotistas, a gestora Sparta, especializada em crédito privado, lembrou que o movimento atual dos FDICs lembra o que vem acontecendo no mercado norte-americano de private credit, que estremeceu após duas falências em outubro.
Diferente do que a tradução literal possa sugerir, nos Estados Unidos, o private credit refere-se a operações bilaterais, com baixa padronização e transparência sem liquidez e fora do ambiente regulado.Esse setor cresceu fortamente nos últimos anos.
Em outubro, duas empresas do setor automotivo, ambas com papéis do credit market espalhados em bancos, faliram.
Comentando a respeito, o magnata de Wall Street Jamie Dimon, alertou: “Quando você vê uma barata, provavelmente existem mais”.
Dimon é o CEO do JPMorgan, o colosso financeiro que resgatou o Bear Sterns no início da crise do subprime, em 2008.
Segundo a Sparta, uma comparação dos FIDCs com o credit market americano pode não ser precisa, uma vez que esse mercado aqui é supervisionado, líquido e com padrões claros de divulgação.
Porém, alerta, alguns padrões se repetem.
“Falhas pontuais raramente são isoladas, e geralmente revelam complacência mais ampla. É um lembrete de que ciclos longos de liquidez e otimismo tendem a esconder fragilidades, e que a disciplina em crédito é testada justamente quando ela parece menos necessária.
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Moody’s piora do rating da Raízen: e agora, credores?
A Moody’s piorou na quarta-feira (12) a expectativa para a nota de crédito da Raízen, pintando um cenário nada promissor para a gigante de açúcar e etanol, dos sócios Cosan e Shell.
A agência de classificação de risco mudou, de estável para negativa, a perspectiva para o rating AAA da Raízen, e vale para a primeira e segunda séries de debêntures da 7ª emissão da empresa.
O que isso signfica para os detentores de papéis da companhia?
Importante lembrar que as emissões da Raízen não possuem covenants, a cláusula contratual que estabelece um nível máximo permitido de endividamento e que, se for desrespeitada, permite aos detentores de dívida o resgate antecipado dos papéis.
Segundo a Moody’s, apesar da perspectiva pior, a Raízen tem um robusto perfil de negócios, dada a sua forte posição competitiva nos negócios de açúcar e álcool, distribuição de combustível.
Além disso, a companhia ltem grande flexibilidade financeira e suporte dos seus acionistas controladores, Shell e Cosan.
Que tipo de dívida tem a Raízen no mercado?
A Investire lista abaixo os instrumentos de dívida que a Raízen tem no mercado de capitais, incluindo debêntures e CRAs.
Mesmo tendo tomado decisões duras nos últimos anos para levantar capital, incluindo a venda pela Cosan de uma fatia que tinha na Vale, uma oferta subsequente de ações e a possível injeção de capital de Cosan e Shell, as perspectivas não são animadoras.
O cenário reflete a tempestade perfeita que atingiu a companhia, incluindo eventos climáticos adversos, alto endividamento e queda continuada nos preços do etanol.
Confira abaixo os principais indicadores de dívida da Raízen:
Segundo a Moody’s, o avanço da dívida bruta ajustada para R$ 70,6 bilhões, frente aos R$ 48,5 bilhões do ciclo anterior – o maior patamar já registrado pela Raízen -, combinado com os juros altos, resultou em maiores despesas financeiras e intensificou a pressão sobre o resultado líquido.
Com isso, a companhia reportou um prejuízo de R$ 4,2 bilhões na safra 2024-25, revertendo um longo histórico de resultados positivos.
No fechamento da safra 2024-25, a alavancagem bruta ajustada (dívida bruta/Ebitda) subiu de 2,7 para 4,9 vezes.
Para tentar reverter uma deterioração adicional do perfil financeiro, a Raízen anunciou um plano para os próximos anos, que inclui forte redução dos investimentos e suspensão do pagamento de dividendos nas próximas safras.
Além disso, a empresa prevê a entrada de R$ 20 bilhões a R$ 25 bilhões oriundos de vendas de ativos e aporte de capital, até o fim da safra 2026-27, fora os R$ 4,8 bilhões já levantados.
Ainda assim, a Moody’s prevê que a alavancagem bruta fique entre 4,5 e 5 vezes na safra que termina em março de 2026, caindo para a faixa de 3,5 a 4 vezes nas duas safras seguintes. E o fluxo de caixa livre (FCF) deve continuar negativo por pelo menos mais três safras.
Em relatório, o Bank of America reforçou sua recomendação de desempenho abaixo da média para as ações da Raízen. “O momento atual é difícil e um potencial aumento de capital seria altamente diluidor para os acionistas”, afirmou o banco de investimentos.


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