Por Jiane Carvalho
O mercado brasileiro de crédito privado, que já ultrapassou R$ 3 trilhões em estoque, entrou em uma fase de teste depois de anos de forte expansão e sofisticação.
O cenário ainda está longe de representar uma ruptura: as emissões continuam fortes e o mercado demonstra capacidade de adaptação.
Mas juros elevados por um período prolongado, aumento da inadimplência e o crescimento das recuperações judiciais (RJs) começam a revelar fragilidades em estruturas que foram desenhadas durante um período de maior liquidez e menor percepção de risco.
Para participantes do mercado, reunidos no I Congresso Brasileiro de Crédito Privado, promovido pelo portal Crédito Privado 360, o atual ciclo é uma oportunidade para colocar à prova os três pilares que sustentaram o desenvolvimento do crédito privado: regulação, infraestrutura e conhecimento.
“Hoje temos um alinhamento de astros não tão positivo”, afirmou Flavia Palacios, CEO da Opea.
Segundo ela, o período de juros altos e as questões econômicas domésticas e externas estão testando se a regulação está adequada, se a infraestrutura funciona como deveria e se o mercado aprendeu a estruturar operações suficientemente robustas para cenários adversos.
E as garantias, são pra valer?
O ambiente é especialmente desafiador porque empresas que eram consideradas sólidas e de baixo risco passaram a enfrentar dificuldades.
José Alexandre Freitas, CEO da Oliveira Trust, afirma que o mercado brasileiro já atravessou diferentes ciclos de inflação, recessão, desemprego e inadimplência e, por isso, desenvolveu resiliência.
“Estamos diante de uma delas”, disse, ao se referir à atual combinação de juros elevados e inadimplência.
Um dos principais aprendizados está na estruturação das garantias. A discussão deixou de ser apenas sobre a quantidade de ativos oferecidos ao credor e passou a considerar sua qualidade e, principalmente, a possibilidade efetiva de execução.
Freitas resume o desafio em três pontos: regularidade e consistência na constituição das garantias, suficiência e exequibilidade.
O excesso de garantias, segundo ele, pode inclusive criar uma falsa sensação de segurança quando os ativos são difíceis de executar.
A experiência recente também mostrou que uma garantia juridicamente válida não necessariamente significa uma proteção econômica adequada.
“Não podemos perder a capacidade de avaliar a garantia e ver se é exequível”, afirmou Freitas.
Ele citou como exemplo a tomada de máquinas e equipamentos de uma fábrica, que pode resolver parte do problema do credor, mas também comprometer a capacidade produtiva da empresa e, consequentemente, a recuperação do crédito.
Informação passa a ser parte da proteção
Outro aprendizado que pode ser extraído do momento mais delicado está na informação.
Durante o período de bonança, destacou a CEO da Opea, monitoramento mais sofisticado podia ser encarado como custo adicional.
Agora, a falta de informação tempestiva passou a ser percebida como um risco.
Palacios cita, como exemplo, operações de recebíveis em que o gestor recebe uma fotografia da carteira com 45 dias de defasagem, em uma planilha enviada pelo próprio devedor. “Você está vendo o filme da operação ou coleções de fotos individuais não fidedignas?”, questionou.
Essa mudança favorece investimentos em tecnologia e infraestrutura.
Segundo Freitas, há dez anos o acompanhamento de uma carteira de recebíveis podia consumir horas de processamento; hoje, com novas ferramentas, o mesmo trabalho pode ser feito em cerca de 20 minutos.
Blockchain, análise automatizada de documentos e acesso a informações em tempo real também ampliam a capacidade de monitorar garantias e operações.
Mercado secundário: agora vai?
Na B3, o desafio passa também pelo mercado secundário. Claudia Bortoletto, diretora da bolsa, afirma que a evolução do crédito privado trouxe uma infraestrutura mais sofisticada, mas que a transparência e a qualidade da informação ainda precisam avançar para permitir uma melhor formação de preços.
A B3 já iniciou programas de formação de mercado e trabalha em uma plataforma eletrônica de negociação para aumentar a transparência de preços, em um segmento ainda bastante concentrado no balcão.
A complexidade das operações reforça esse desafio. Segundo Bortoletto, a B3 recebe cerca de 200 solicitações de alterações em ativos por semana — aproximadamente mil por mês — relacionadas a mudanças nas características das operações. O desafio é fazer com que essas informações cheguem ao mercado de maneira tempestiva.
Seletividade do investidor aumenta
O momento também produz uma divisão maior entre os diferentes perfis de tomadores. Alexandre Muller, sócio-fundador e CIO da Leto Capital, chama atenção para a diferença entre grandes empresas e pequenas e médias companhias.
Segundo ele, enquanto a inadimplência das grandes empresas permanece abaixo de 1%, entre PMEs ela passou de cerca de 2% para 6% entre 2020 e 2026, segundo dados do Banco Central.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que os fundos de crédito podem continuar apresentando desempenho positivo mesmo em meio às notícias de recuperação judicial.
Muller citou o desempenho acumulado até agosto do índice de crédito atrelado ao CDI (Idex-CDI), de cerca de 10% nominal e 1 ponto percentual acima do CDI no período. A explicação, segundo ele, está na composição das carteiras e na concentração em empresas maiores, que apresentam menor inadimplência.
O cenário, porém, traz uma nova questão: a concentração. A maior liquidez disponível para grandes tomadores aumenta seu peso nos índices e nas carteiras, enquanto empresas menores enfrentam maior dificuldade para acessar capital em condições competitivas.
Para Muller, o ambiente de juros elevados tende a produzir uma força contrária ao desenvolvimento do crédito, ao mesmo tempo em que a tecnologia e a multiplicação de gestoras, assessorias e boutiques de estruturação ampliam as possibilidades de customização do financiamento.
Cresce o interesse por alongamento de dívida
No curto prazo, a expectativa é de continuidade das operações de alongamento de dívida. Segundo Freitas, parte das captações atuais tem sido direcionada justamente para estender vencimentos na expectativa de uma queda futura dos juros. A avaliação é que ainda pode haver uma piora moderada do cenário antes de uma eventual melhora.
Apesar dos desafios, os participantes do debate não veem uma ruptura do mercado, mas que o ciclo atual pode acelerar a profissionalização do setor.
“O futuro é promissor”, afirmou Palacios, para quem os ciclos de baixa permitem incorporar aprendizados que podem tornar o mercado mais forte na retomada.
A regulação, segundo ela, também está sendo testada diante das RJs e de desvios de conduta, enquanto operações novas já começam a incorporar maior preocupação com transparência e dados em tempo real.
Freitas, da Oliveira Trust, tem visão semelhante de que o momento não é de crise, mas de seleção e amadurecimento, citando que o mercado que avançou apoiado em juros mais baixos e maior apetite a risco agora precisa provar que suas estruturas funcionam quando as garantias precisam ser executadas, os dados precisam ser confiáveis e o crédito precisa ser precificado de acordo com seu risco.
“No crédito privado, quando o mercado está ruim, a gente está bom; quando o mercado está bom, estamos ótimos”, resumiu Freitas.
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