O mercado brasileiro de crédito privado convive com um paradoxo. Enquanto o volume de emissões cresceu em ritmo acelerado nos últimos anos, a negociação desses papéis no mercado secundário segue relativamente tímida, limitando a formação eficiente de preços e restringindo a entrada de novos investidores.
Agora, uma combinação de avanços na infraestrutura de negociação, novos produtos e possíveis mudanças tributárias começa a alimentar uma tese que ganha força entre gestores, bolsa e participantes do mercado: a de que os ETFs podem se tornar o principal catalisador da próxima fase de desenvolvimento do crédito privado no Brasil.
A transformação ocorre em um mercado que já movimenta cerca de R$ 3 trilhões em estoque de ativos — valor equivalente a aproximadamente 60% da capitalização das empresas listadas na B3. Apesar da expansão, a liquidez ainda está distante da observada em outros segmentos do mercado financeiro.
Segundo Luiz Masagão, vice-presidente de Produtos e Clientes da B3, o mercado secundário de debêntures, CRIs, CRAs e Fiagros movimenta hoje cerca de R$ 7 bilhões por dia, aproximadamente um quinto do giro diário da bolsa.
Embora a comparação com ações tenha limitações, especialistas afirmam que o baixo volume de negociação acaba comprometendo a eficiência na precificação dos ativos e reduzindo o interesse de investidores institucionais de maior porte, como fundos de pensão e investidores estrangeiros.
É justamente nesse ponto que entram os ETFs.
Ao concentrar centenas de ativos em um único veículo negociado em bolsa, os fundos de índice tendem a criar uma demanda recorrente pelos títulos que compõem seus portfólios. Quanto maior o patrimônio desses produtos, maior a necessidade de compra e venda dos ativos subjacentes, ampliando a liquidez de todo o mercado.
Nos Estados Unidos, esse mecanismo ajudou a transformar o mercado de renda fixa corporativa. Gestores brasileiros acreditam que o país pode seguir caminho semelhante.
“Os ETFs de crédito têm um potencial de crescimento muito grande”, afirma Masagão.
Infraestrutura começa a evoluir
A expansão dessa indústria depende, contudo, de um mercado secundário mais eficiente.
Por isso, a B3 prepara para agosto o lançamento de um serviço de market maker para debêntures, CRIs e CRAs. A iniciativa busca reduzir spreads de negociação e aumentar a liquidez dos papéis, criando condições mais favoráveis para a operação dos ETFs e de outros investidores.
A medida é vista como um passo importante para aproximar o mercado brasileiro dos padrões observados em mercados mais maduros, nos quais a atuação coordenada entre gestores, formadores de mercado e bolsas sustenta a elevada liquidez dos ETFs.
Gestoras ampliam ofensiva
Enquanto a infraestrutura evolui, as gestoras começam a preparar uma nova geração de produtos.
A Leto Capital está entre as primeiras casas a apostar nesse movimento. A gestora pretende lançar nos próximos meses seu primeiro ETF de crédito privado, formado por uma carteira de debêntures de alta qualidade de crédito.
Inicialmente, o produto será direcionado principalmente a investidores institucionais, especialmente fundos de pensão — um segmento que historicamente ainda utiliza pouco os ETFs, mas que pode encontrar nesse formato uma alternativa eficiente para ganhar exposição ao crédito corporativo.
Segundo Alexandre Müller, chefe de investimentos da Leto Capital, esse lançamento representa apenas o primeiro passo.
A intenção da gestora é construir uma família completa de ETFs de crédito, acompanhando o amadurecimento da indústria brasileira.
Na visão de Müller, o mercado local de ETFs está apenas no início de um ciclo de expansão. A expectativa é que o patrimônio da indústria salte para aproximadamente R$ 1 trilhão nos próximos cinco anos, multiplicando por dez o tamanho atual.
O precedente americano
A tese encontra respaldo na experiência internacional.
Para Caué Mançanares, CEO da Investo, o mercado brasileiro tende a reproduzir o movimento observado nos Estados Unidos, onde os ETFs deixaram de ser um produto de nicho para se tornarem um dos principais canais de acesso aos mercados financeiro e de capitais.
Desde 2008, o patrimônio da indústria americana cresceu cerca de quinze vezes. Ao longo desse período, os ETFs passaram a desempenhar papel relevante também no mercado de crédito corporativo, aumentando a eficiência das negociações e ampliando a base de investidores.
Na avaliação de Mançanares, esse processo pode começar a se repetir no Brasil à medida que novos produtos cheguem ao mercado e a liquidez dos títulos subjacentes evolua.
Tributação ainda limita crescimento
Apesar do entusiasmo, a indústria reconhece que o ambiente regulatório ainda impõe barreiras importantes.
A principal delas envolve a tributação dos ETFs compostos por debêntures incentivadas.
Embora esses títulos sejam isentos de Imposto de Renda quando adquiridos diretamente pelo investidor, essa isenção não é preservada dentro da estrutura dos ETFs. Hoje, o ganho obtido pelo cotista é tributado em 15%.
Para Fernanda Crivelanti, responsável pela área de ETFs da Leto Capital, essa diferença reduz a competitividade do produto.
“O ETF deveria ter o mesmo tratamento tributário dos ativos que compõem sua carteira e também ser isento”, afirma.
Outra preocupação diz respeito à interpretação atualmente adotada pela Receita Federal para ETFs de renda fixa atrelados ao CDI.
Pela leitura que vem prevalecendo, fundos com prazo médio inferior a 180 dias ficam sujeitos à alíquota de 25% de Imposto de Renda — a maior da tabela regressiva. Na prática, gestores afirmam que isso cria uma desvantagem tributária relevante frente a outros veículos de investimento.
A insegurança regulatória já produz efeitos concretos. Diversas gestoras optaram por adiar o lançamento de ETFs de crédito privado enquanto aguardam um posicionamento definitivo das autoridades fiscais.
Segundo Fernanda, há expectativa de que esse tema seja solucionado nos próximos meses.
A próxima etapa do mercado
Poucos segmentos do mercado financeiro brasileiro cresceram tanto quanto o crédito privado na última década. O desafio agora parece menos relacionado à expansão da oferta de ativos e mais à construção de um mercado secundário profundo, líquido e capaz de atrair novos perfis de investidores.
Se a experiência internacional servir de referência, os ETFs podem desempenhar exatamente esse papel: transformar um mercado historicamente marcado por negociações pontuais em um ambiente com maior liquidez, transparência e eficiência.
Ainda é cedo para afirmar que essa transformação ocorrerá na mesma velocidade observada nos Estados Unidos. Mas, para gestores, bolsa e participantes do mercado, a direção parece cada vez mais clara: a próxima fronteira de crescimento do crédito privado brasileiro pode passar, justamente, pelos ETFs.
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